Protesto

Exigir um posicionamento de um atleta negro é injusto e cruel.

Com o recente dia da consciência negra e frente ao repugnante assassinato de um homem negro no Carrefour, é preciso discutir a cobrança sobre os negros e negras por posicionamentos. Como se fosse responsabilidade deles as respostas contra o racismo.

Antes de explorar a fundo o assunto, é necessário explicar nas palavras de Marcelo Medeiros Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que “quando estamos falando de discriminação racial, estamos discorrendo sobre relações de poder e como elas se estruturam em uma sociedade”.

E uma observação, tratamos aqui de atletas negros, mas serviria para qualquer personalidade midiática negra.

Pode-se entender, então, que qualquer atitude contra o racismo, ou qualquer outra desigualdade, é uma atitude contra um sistema, cuja premissa é uma relação de poder x submissão. 

Cobrar que um negro ou uma negra contrariem o sistema, primeiro, é injusto, pois coloca-se sobre eles a responsabilidade de uma briga que é de todos. 

Uma sociedade igualitária não é só mais humana, como melhor para a comunidade, considerando todos os seus desdobramentos possíveis. Só não é melhor, é claro, para o explorador da desigualdade. 

Segundo, é cruel porque cobramos de atletas que eles protestem contra um sistema, sendo que foi através dele que obtiveram algum tipo de ascensão social e econômica. Falando de futebol, no caso. 

Certa vez, ouvi do Juca Kfouri em um podcast, um comentário sobre o Pelé. Que o único medo do rei era a fome. Fome! Eu não sei qual o patrimônio do Pelé hoje, mas com certeza fome ele não vai passar. 

Pelé sofreu inúmeras ofensas racistas, o grande Nelson Rodrigues se referia a ele como o “crioulo”, aparentemente de forma afetuosa, mas ainda assim racista. Ele tinha o apelido de “gasolina” por derivar do petróleo. Mesmo assim, o rei raramente se pronunciou sobre o assunto durante a carreira. 

Agora, cobrar do Pelé uma atitude que vá contra um sistema que lhe deu tudo o que ele tem, inclusive a certeza de não passar fome, além de injusto, é cruel. 

Outro exemplo, recentemente Neymar sofreu uma injúria racial em campo e denunciou, protestou, recebeu apoio, defendeu o fim do racismo, enfim, se posicionou fortemente contra o sistema. Mas ele já é o Neymar. Ele não vai ser colocado para treinar em separado pelo posicionamento dele. 

Mesmo nesse caso ele enfrentou críticas pela denúncia e o mais grave, do presidente da Federação Francesa de Futebol, Noël Le Graët, que disse: “o fenômeno do racismo no esporte, e no futebol em particular, não existe ou quase não existe”.  

Será que o “Jeanzinho”, francês, no time pequeno do seu país, em sua primeira chance de ascensão no futebol teria a mesma condição de reclamar direitos?

Imagina se o presidente da sua empresa declara isso e você precisa denunciar o racismo do seu chefe direto. E, para piorar, você não é o Neymar. Não parece um fardo justo, ainda mais se isso afetar o seu sustento. 

Ainda dentro do futebol, Aranha, ex-goleiro de Santos e Palmeiras, teve sua carreira encurtada após sérias denúncias de racismo vindas da torcida gremista em um jogo.

Frase aranha

Portanto, é necessário mais empatia e parar de cobrar respostas ao racismo dos tantos negros e negras. Mais do que responder, eles precisam receber o respeito e o direito para dizer!

Para isso, é preciso dar espaço em postos de repercussão, como jornalistas, técnicos, diretores e presidentes. Além do apoio de federações, patrocinadores, televisões entre tantos outros. Dos 20 técnicos da primeira divisão do futebol brasileiro, apenas 2 são pardos ou negros.

brancos x negros
Únicos técnicos negros ou pardos, Jair Ventura do Sport e Marcelo Cabo do Atlético GO.

Os brancos precisam ser mais questionados e que se incomodem mais com a ausência de negros em postos de comando e que, de fato, tenham condutas antirracistas, mais do que uma simples nota de repúdio.

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